A Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” vem a público manifestar seu repúdio à invasão do Ossário Geral do Cemitério do Araçá, ocorrida na madrugada deste domingo (3/11), quando foram destruídos elementos da instalação “Penetrável Genet / Experiência Araçá”, de autoria dos artistas Anna Ferrari e Celso Sim, que tematiza a questão dos mortos e desaparecidos políticos da ditadura.Além da destruição dos monolitos de mármore que integravam a instalação, três sacos plásticos contendo ossadas foram abertos e o conteúdo foi espalhado, o que configura, além de crime, um enorme desrespeito com os restos mortais depositados nas gavetas violadas.Vale ressaltar que esse ato de vandalismo ocorreu logo após o Ato Ecumênico “Pelo dever e pelo direito de sepultar os mortos”. Tratou-se de uma linda homenagem às vítimas da ditadura militar, que foi realizado pelo movimento por memória, verdade e justiça, em 2 de novembro, Dia dos Finados, exatamente no mesmo Cemitério do Araçá.Essa violência é inaceitável. As autoridades competentes devem apurar com rigor e urgência as circunstâncias e os responsáveis por essa conduta criminosa, que afetou não somente a instalação artística, mas também constituiu uma afronta à consolidação da democracia e ao respeito integral aos direitos humanos.Diante da gravidade do ocorrido, convocamos todas e todos para estarem presentes no ato de repúdio que será realizado no dia 5 de novembro, terça-feira, às 12h, no Ossário Geral do Cemitério do Araçá. Nesse ato, também será inaugurada a obra “Penetrável Genet / Experiência Araçá”.Pedimos que circulem em suas redes a presente nota e divulguem o mais amplamente este chamado.São Paulo, 4 de novembro de 2013.Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”Deputado Estadual Adriano Diogo – PresidenteComissão da Verdade da Câmara MunicipalVereadora Juliana CardosoVereador Gilberto NataliniCPMVJ - Comitê Paulista, Comitê Paulista Pela Memória, Verdade e Justiça
COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Nota de repúdio da Comissão da Verdade de São Paulo "Rubens Paiva"
Comissão da Verdade do Rio quer transformar antigo prédio do Dops em centro de memória
Vladimir Platonow
Repórter da Agência
Brasil
04/11/2013
Rio de Janeiro – O antigo prédio do
Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que serviu de aparelho
repressor estatal em duas ditaduras, a de Getúlio Vargas e a do regime militar,
pode se transformar em um centro de memória dos movimentos sociais e políticos.
A iniciativa é da Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-Rio), que hoje (4)
iniciou um seminário para debater o tema. Atualmente, o prédio está sob
responsabilidade da Polícia Civil, que pretende inaugurar ali o Museu da
Polícia.
O presidente da CEV-Rio, o advogado Wadih
Damous, participou de uma mesa de depoimentos de ex-presos políticos que foram
torturados nas dependências do antigo Dops. O evento foi organizado na calçada
em frente ao prédio, na esquina da Rua da Relação com a Rua dos Inválidos.
“Foi um ato para dar voz aqueles que aqui
estiveram presos em determinados períodos da repressão ditatorial, para poderem
relatar tudo aquilo que sofreram, todas as arbitrariedades, os espancamentos,
as torturas. Nós queremos transformar o prédio em um museu da resistência e da
repressão. Isso é um modelo que está sendo efetivado em diversos países,
inclusive da América Latina, onde ocorreram ditaduras”, disse Damous.
Uma das presas políticas que ficaram
confinadas no local é a farmacêutica Ana Miranda, que contou o que passou no
antigo prédio do Dops e também no quartel do Exército da Rua Barão de Mesquita,
na Tijuca, onde funcionava o extinto Destacamento de Operações de
Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), responsável pela
maior parte dos atos de violência e tortura.
“Nós precisamos nos apropriar deste
espaço para que as próximas gerações possam entender e saber o que se passou,
para que a gente possa refletir e criar políticas públicas para que não se
repita o que aconteceu. É uma das formas de impedir que a violência policial
continue acontecendo, com desaparecimentos e mortes em confrontos”, disse.
Ana ficou presa durante a ditadura por
cerca de cinco anos, sendo nove meses no antigo Dops, em um local nos fundos do
prédio conhecido como depósito de presos: “Era um local de presos comuns e de
condenados pela Lei de Segurança [Nacional]. Em 1964, muita gente foi torturada
ali dentro. Mas a tortura sistemática ocorreu nesse prédio em todo o século
passado, sob a chefia de Filinto Müller, no Estado Novo, e depois até 1969”.
O gaúcho João Figueiró, de 88 anos,
também ficou preso no antigo prédio do Dops, porque na época ele militava no
Partido Comunista Brasileiro (PCB). Até hoje ele tem pesadelos com as torturas que
sofreu no local. “Eu me sinto mal [próximo ao prédio], pois me faz lembrar
quando a gente estava no pau de arara [em que o torturado é preso em um pedaço
de madeira, amarrado pelas mãos e pelos pés] e na cadeira do dragão [onde eram
aplicados choques elétricos]. Eu não posso ouvir um miado de gato de noite,
porque me faz lembrar as torturas dos companheiros e os gritos deles. É
horrível. Tenho pesadelos. Isso não passa nunca”, lembra.
Figueiró também foi preso político na
ditadura Vargas e ficou detido no antigo presídio da Ilha Grande, no sul do
estado, de 1943 a 1945. “As minhas unhas foram arrancadas duas vezes: na
ditadura do Vargas e na ditadura militar”, disse. Ele se aposentou como
auxiliar de administração escolar em um colégio na zona sul do Rio.
Procurada para se manifestar sobre o
desejo da CEV-Rio de transformar o prédio do antigo Dops em um memorial
político, a Polícia Civil informou, por meio de nota, que aceita ceder parte do
imóvel. “De acordo com o subchefe Administrativo, Sérgio Caldas, em reunião com
integrantes da Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, há cerca de
seis meses, ficou acordado que parte do terceiro andar do Palácio da Polícia
será destinado à comissão”.
Edição: Fábio Massalli
http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-11-04/comissao-da-verdade-do-rio-quer-transformar-antigo-predio-do-dops-em-centro-de-memoria
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Estadão : Militares recebem Comissão da Verdade, mas proíbem visita a quartel no Rio
21 de agosto 2013
Tenente-coronel diz ter cumprido ordem de não autorizar acesso de integrantes do colegiado ao prédio, centro de repressão na ditadura
Rio - Integrantes da Comissão Estadual da Verdade do Rio que Janeiro que tentaram, na manhã desta quarta-feira, visitar o quartel onde funcionou o Destacamento de Operações e Informações (DOI) do 1º Exército durante a ditadura de 1964-1985 saíram às 11h20 da unidade sem conseguir percorrê-la. No local, hoje, fica sediado o 1.º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca, zona norte.
O comandante do 1.º BPE, tenente-coronel Luciano Correia Simões, recebeu a comissão, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que em 1977 esteve preso no DOI, e os deputados estaduais Gilberto Palmares e Robson Leite, ambos do PT, além de alguns ex-presos políticos que foram torturados no local. Embora cordial, o militar informou cumprir ordens superiores ao não permitir a visita ao local, que a comissão pretende tombar e transformar em um centro de memória dedicado às vítimas da ditadura.
Tenente-coronel diz ter cumprido ordem de não autorizar acesso de integrantes do colegiado ao prédio, centro de repressão na ditadura
Rio - Integrantes da Comissão Estadual da Verdade do Rio que Janeiro que tentaram, na manhã desta quarta-feira, visitar o quartel onde funcionou o Destacamento de Operações e Informações (DOI) do 1º Exército durante a ditadura de 1964-1985 saíram às 11h20 da unidade sem conseguir percorrê-la. No local, hoje, fica sediado o 1.º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca, zona norte.
O comandante do 1.º BPE, tenente-coronel Luciano Correia Simões, recebeu a comissão, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que em 1977 esteve preso no DOI, e os deputados estaduais Gilberto Palmares e Robson Leite, ambos do PT, além de alguns ex-presos políticos que foram torturados no local. Embora cordial, o militar informou cumprir ordens superiores ao não permitir a visita ao local, que a comissão pretende tombar e transformar em um centro de memória dedicado às vítimas da ditadura.
O veto já fora comunicado à comissão na véspera, por meio de ofício do Comando Militar do Leste, entregue por dois coronéis. Mesmo assim, a comissão e ativistas de direitos humanos se concentraram ontem na Praça Lamartine Babo, em frente a uma entrada lateral do quartel, após as 10 horas. Pouco antes das 11 horas foram para a entrada principal, na rua Barão de Mesquita, 425, e pediram para entrar. O coronel Luciano permitiu a entrada da comissão, dos três parlamentares que a acompanhavam (deputado federal Ivan Valente, do PSOL, e deputados estaduais Robson Leite e Gilberto Palmares) e de alguns ex-presos políticos que foram torturados no local. Durante a reunião, que durou cerca de 20 minutos, o CML divulgou nota oficial, na qual alega que o Comando do Exército está vinculado ao Ministério da Defesa, órgão federal, portanto não se subordina à Lei Estadual 6335/2012, que criou a Comissão Estadual da Verdade.
"(Não deixar a Comissão Estadual da Verdade visitar o quartel) É ilegal", protestou o presidente da comissão, Wadih Damous. "Vamos insistir junto ao Ministério da Defesa e vamos convidar o ministro Celso Amorim para fazer a visita conosco." Valente informou que pretende convocar Amorim à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, para prestar esclarecimentos sobre o veto. "Fiquei preso aqui", contou o deputado federal, que foi torturado por integrar o Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP). Na ocasião, outras 16 pessoas foram presas.
Durante a reunião, além de Valente, dois ex-presos políticos que passaram pelo DOI, Álvaro Caldas e Cecília Coimbra, descreveram para o tenente-coronel Luciano as torturas que sofreram no local. "Eu lamento profundamente", afirmou o oficial, segundo relato de Cecília. Nos anos 70, no DOI do Rio de Janeiro, ocorreram, além de torturas, assassinatos e desaparecimentos de presos políticos, como Rubens Paiva e Mário Alves. Ontem, as fotos de alguns deles foram expostas por ativistas de direitos humanos em varal na Praça Lamartine Babo, a poucos metros da unidade.
Durante o encontro, o presidente da comissão, Damous tentou um contato por telefone com o comandante Militar do Leste, general Francisco Carlos Modesto, para reivindicar que a comissão visite o quartel. Do CML, informaram que o militar não estava, mas, algum tempo depois, o general retornou a ligação. Ficou acertado um encontro para esta tarde, no Palácio Duque de Caxias, para discutir o assunto.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
CHAMADA: I Encontro Regional Sudeste da Rede Brasil MVJ - próximo sábado, 03/agosto
Nós, do Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça, convidamos para o I Encontro Regional Sudeste da Rede Brasil MVJ (Memória, Verdade e Justiça) a ser realizar no próximo dia 03 de agosto, das 9h30 às 17h30, na sede do ISER, situada à Rua do Russel, 76 - 5º andar (estação do metrô Glória, saída Viva Rio/Outeiro da Glória).
Nesses dois anos de existência do Coletivo RJ, a luta tem avançado e requer troca de experiências e maior consistência no debate sobre o tema que nos une, o que ajudará na proposição de alternativas para o momento em que vivemos.

Manifestação da Articulação Estadual por MVJ
em frente ao prédio da Polícia Civil (ex-DOPS RJ)
maio de 2012
DIA 03 AGOSTO - SÁBADO
MANHÃ
9h30 Apresentações dos participantes e do Coletivo RJ
10h30 Tema I: CNV – Comissão Nacional da Verdade – críticas ao primeiro ano de gestão, a crise atual e propostas
Introdução ao debate – Apresentação do Relatório do ISER
Debate e propostas
13h Almoço: sugerimos dois restaurantes b
em ao lado do ISER (‘Galeteando’ e ‘Taberna da Glória’)
TARDE
14h30 Tema II: Reinterpretação da Lei da Anistia – Diretrizes para Campanha
Introdução ao Debate
Andamento das decisões da Corte Interamericana Caso Araguaia (CEJIL)
Proposta da OAB Federal de recurso à ADPF 153 (Wadih Damous)
Proposta de Lei da Deputada Federal Erundina
16h Pausa para café
16h15 Debate e propostas
18h Término
DIA 04 DE AGOSTO – DOMINGO
MANHÃ
10h Questões organizativas da Rede Brasil MVJ (para os integrantes dos Comitês e Coletivos):
Caráter/função da Secretaria de Articulação Nacional da Rede MVJ
11h30 Pausa para café
Novos representantes – titular e suplência da Região Sudeste na Rede Brasil MVJ - continuação do debate e propostas
13h30 Término
SUGESTÃO POLÍTICO-CULTURAL
Visita conjunta, após o almoço de domingo 04 de agosto, por volta das 15h30, à CASA DAROS Latinamerica, que expõe arte contemporânea (1200 obras tais como pinturas, esculturas, vídeos, fotografias...) de 117 artistas, em especial a exposição ‘La Guerra que no Hemos Visto’, de Juan Manuel Echevarría (até 08 ago). Os trabalhos dessa exposição são testemunhos de homens e mulheres que participaram do conflito colombiano. O público também escutará reprodução de depoimentos.
Endereço: Rua General Severiano, 159
Entrada: R$ 12,00 (meia entrada para estudantes e idosos)
Domingo das 12 às 18h – quarta a sábado das 12 às 20h
Observações:
1) Nossa intenção é a de ampliar, cada vez mais, o debate. Para isso, sua presença é fundamental e contamos com ela, tanto como representante de movimentos sociais ou como interessado. Precisamos da confirmação de sua ida; favor enviá-la para o e-mail: coletivorj@gmail.com
2) Brevemente enviaremos sugestões de leitura para subsidiar as discussões.
3) Quem já estiver por aqui na sexta poderá acompanhar os trabalhos do Fórum de Participação da Sociedade Civil junto à CEV Rio – às 15h.
MAIS MEMÓRIA, MAIS VERDADE E JUSTIÇA!
Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça
Nesses dois anos de existência do Coletivo RJ, a luta tem avançado e requer troca de experiências e maior consistência no debate sobre o tema que nos une, o que ajudará na proposição de alternativas para o momento em que vivemos.

Manifestação da Articulação Estadual por MVJ
em frente ao prédio da Polícia Civil (ex-DOPS RJ)
maio de 2012
Programação:
DIA 03 AGOSTO - SÁBADO
MANHÃ
9h30 Apresentações dos participantes e do Coletivo RJ
10h30 Tema I: CNV – Comissão Nacional da Verdade – críticas ao primeiro ano de gestão, a crise atual e propostas
Introdução ao debate – Apresentação do Relatório do ISER
Debate e propostas
13h Almoço: sugerimos dois restaurantes b
em ao lado do ISER (‘Galeteando’ e ‘Taberna da Glória’)
TARDE
14h30 Tema II: Reinterpretação da Lei da Anistia – Diretrizes para Campanha
Introdução ao Debate
Andamento das decisões da Corte Interamericana Caso Araguaia (CEJIL)
Proposta da OAB Federal de recurso à ADPF 153 (Wadih Damous)
Proposta de Lei da Deputada Federal Erundina
16h Pausa para café
16h15 Debate e propostas
18h Término
DIA 04 DE AGOSTO – DOMINGO
MANHÃ
10h Questões organizativas da Rede Brasil MVJ (para os integrantes dos Comitês e Coletivos):
Caráter/função da Secretaria de Articulação Nacional da Rede MVJ
11h30 Pausa para café
Novos representantes – titular e suplência da Região Sudeste na Rede Brasil MVJ - continuação do debate e propostas
13h30 Término
SUGESTÃO POLÍTICO-CULTURAL
Visita conjunta, após o almoço de domingo 04 de agosto, por volta das 15h30, à CASA DAROS Latinamerica, que expõe arte contemporânea (1200 obras tais como pinturas, esculturas, vídeos, fotografias...) de 117 artistas, em especial a exposição ‘La Guerra que no Hemos Visto’, de Juan Manuel Echevarría (até 08 ago). Os trabalhos dessa exposição são testemunhos de homens e mulheres que participaram do conflito colombiano. O público também escutará reprodução de depoimentos.
Endereço: Rua General Severiano, 159
Entrada: R$ 12,00 (meia entrada para estudantes e idosos)
Domingo das 12 às 18h – quarta a sábado das 12 às 20h
Observações:
1) Nossa intenção é a de ampliar, cada vez mais, o debate. Para isso, sua presença é fundamental e contamos com ela, tanto como representante de movimentos sociais ou como interessado. Precisamos da confirmação de sua ida; favor enviá-la para o e-mail: coletivorj@gmail.com
2) Brevemente enviaremos sugestões de leitura para subsidiar as discussões.
3) Quem já estiver por aqui na sexta poderá acompanhar os trabalhos do Fórum de Participação da Sociedade Civil junto à CEV Rio – às 15h.
MAIS MEMÓRIA, MAIS VERDADE E JUSTIÇA!
Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça
terça-feira, 9 de julho de 2013
TESTEMUNHO DA GRANDE MOBILIZAÇÃO
"Vamos à crônica dos fatos: na segunda-feira recebo um telefonema que ia me colocar na cena que estava vendo na televisão: o acampamento de jovens que estava fixada durante os últimos quatro dias a poucos metros da residência do Governador."
Sob a forma epistolar encontrarão a crônica de uma interessante experiência que Eduardo Losicer (Equipe Clinica Politica) vivenciou recentemente sobre o acampamento em frente da casa do Governador Sérgio Cabral.
Querido Osvaldo,
Você teve a feliz
oportunidade de acompanhar, nos três ou quatro dias que ficou por aqui antes de
voltar para nossa Buenos Aires querida, algo que imediatamente entendemos –
mesmo sem entender muito -- como um grande acontecimento: sem nada que o
pré-anuncie, vimos multidões de jovens tomando as ruas das cidades. Sem organização
nem bandeiras partidárias, movidos por uma pura vontade política de se
manifestar, mesmo com protestos difusos ou pontuais, sem lideranças, convocados
por redes horizontais, sustentando sua índole reivindicativa não violenta,
enfim, nesses dias começamos a ver um grande fenômeno político acontecendo
diante de nossos olhos e nos deixando perplexos frente a tanta novidade que nos
jogavam na cara -- logo a nós que já passamos por tantas barricadas e
mobilizações!
Terás percebido que estou fazendo um recorte do que podemos
entender como efeitos da grande mobilização, com seus inevitáveis usos,
reacionários, todos espúrios e parasitários da novidade. Colecionei uma série
de expressões – entre próprias e alheias – que tentam se aproximar daquilo que
pode haver de essencial neste novo sujeito social e político, independentemente
das transformações que possam vir a seguir. As expressões-síntese que até agora
me parecem mais fiéis ao que se passa são: ‘crise da representação’, ‘multidão
desejante, ‘pulsão de massa’, ‘testemunho’ e
outras. Claro que nenhuma delas é suficiente para concluir. Há uma ‘tentação de
concluir’ da qual queremos escapar.
Enquanto você estava aqui no Rio, brincávamos com a ideia de
qual seria a reportagem que você ofereceria aos amigos portenhos a respeito do
vivido no Rio e em São Paulo. E aqui está o motivo central desta carta: tenho o
relato de uma experiência, vivida no inicio desta semana, que fala por si e pode
ajudar aos que queiram imaginar (não dá mais do que para isso) algo da criatura
multitudinária que acaba de nascer. Em que se diferencia esta estranha recém-nascida,
sem pai nem mãe, que nem nome tem, como tiveram outras massas de jovens
mobilizados em outras praças do mundo? Depois da experiência que tive com os
jovens (vou usar a palavra ‘jovens’ condensando vários sentidos) na segunda e terça-feira,
posso dizer que pude fitar o rosto do monstro (vi a palavra ‘monstro’ usada
varias vezes para denominar o levante). Foi a Vera – ela própria participou da
partida da experiência – que, ouvindo meu relato posterior, me convenceu a
colocar meu testemunho por escrito. Me convenceu porque aprendemos juntos que o
testemunho vivo de um fato que pode vir a ser histórico é um instrumento
formidável para manter viva a ‘novidade’ que o acontecimento/multidão traz –
antes que as negações reacionárias do novo consigam destruí-lo -- e ajudar a
afirma-lhe sua alma política, nascida em estado ‘adulto coletivo comum’.
Vamos à crônica dos
fatos: na segunda-feira recebo um telefonema que, minutos depois, ia me
colocar, de corpo e alma, na cena que estava vendo na televisão: o acampamento
de jovens que estava fixada durante os últimos quatro dias a poucos metros da
residência do Governador. Quem me chamou era uma colega profundamente
sensibilizada com o contato que acabara de ter com eles. Principalmente quando
souberam que era psicanalista e lhe pediram ajuda. A preocupação era com alguns
companheiros com ‘os nervos a flor da pele’ e o perigo que isto se transforme
na faísca esperada pela repressão presente nos policiais que estavam cara a
cara com eles. Ainda por cima, a comunidade da Rocinha e do Vidigal estavam
descendo o morro e não se sabia de ‘acordos’ com eles. A colega lembrou de
nosso trabalho com clínica política (aqui não é necessário colocar aspas) e me
transmite o pedido. [vi depois pela televisão, que a comunidade da Rocinha
desceu cantando o hino nacional]
Indo com urgência
para lá me fez sentir como se estivesse a bordo de em uma impensada ambulância
clínico política. Convocado para ajudar em zona potencialmente conflagrada,
subjetivamente me sentia em esse estimulante estado em que deveria sentir
medo... mas não sentia. Não sabia se ia levar um tiro de borracha na testa ou
se me sentiria totalmente alienado – em tempo e espaço – da situação real que
me esperava, mas isso não era o mais importante. O que me preocupava era: de
que me serviriam os quarenta anos de clinico e militante para responder a esses
jovens ativados politicamente de uma hora para outra que me chamavam para a
praia do Leblon justamente porque no grupo se estava produzindo uma
subjetividade ‘nervosa’ que podia colocar tudo em risco?
Lá chegando pela avenida da praia, logo vi que a base real
dos acontecimentos era tão elementar que parecia irreal: não dava para
acreditar que aquela esquina com algumas dúzias de pessoas inidentificáveis,
sem ‘caminhão de som’, sem discurso a não ser o de suas enfartáveis cartolinas,
era um dos pequenos cenários em que estavam postos os olhos do Brasil inteiro.
O encontro com a pessoa que originou o pedido foi ‘direto’, para
usar a palavra que me parecia uma das mais significativas do movimento todo.
Quebrado o estranhamento inicial (tampouco ela acreditava que um analista tenha
se materializado na sua frente), nos entendemos rapidamente e combinamos que
voltaria para me encontrar com todos durante a manha do dia seguinte. Quando se
mostrou apreensiva com os companheiros que poderiam achar a psicologia como
individualismo fora de lugar, a tranquilizei dizendo que a psicologia que nos
praticamos não tem ‘ordem’, muito menos imposta, assim como eles não tem; por
tanto, era necessário combinar o obvio: participaria quem quiser.
E assim foi: a roda que formamos em plena rua funcionou durante
varias horas sob as barbas dos policiais, que a tudo assistiam a poucos metros.
Tampouco eles entendiam que um coroa como eu estivesse respondendo questões
sobre, por exemplo, terrorismo psicológico. Eram os jovens que chamavam deste
jeito a atitude dos policiais, fardados ou à paisana, recomendando em voz
baixa, ‘pelo seu bem’, sair do lugar antes que seja tarde. Não tiveram
problemas em entender que, neste caso, o terror não vem só da ameaça indireta,
mas da ambiguidade perversa de se apresentar como ‘protetor’. Vimos que o
melhor antídoto contra este tipo de terrorismo era tomar consciência, uma e
outra vez, que não havendo relação de forças violentas para ser comparadas
(repressão/resistência), era obvio que a relação da força política estava
integralmente do lado deles. Não, não haveria tanques (não estávamos na Praça
da Paz Celestial) nem qualquer força bélica que pudesse tira-los da posição
conquistada. Se eles eram combatentes do bom combate, tampouco haveria brechas
psicológicas para o medo infundido e não seria por isso que abandonariam a
colina conquistada. Lembrei-lhes que o terrorismo psicológico e a contrainformação
já tinham sido usados em larga escala em épocas da ditadura, mas que agora são
eles mesmos que estão provando que, embora vivemos em outra época, ainda
perduram os ecos do terror do passado.
Um caso mais grave de ameaça telefônica dirigida a família de um
dos jovens mais ativos foi a prova de que estes “serviços do Estado” ainda
estavam ativos. A família colocou todo tipo de impedimento para a participação
dele no acampamento. Era dramático ver o embate entre a instituição familiar e
a paixão desta nova forma de militância. Para complicar o quadro, a namorada,
presente, não podia disfarçar as divisões que a atravessavam. Embora a revolta fosse
grande, o laço solidário e o ‘não-medo’ do conjunto (a ‘causa’ nunca estava em
risco simplesmente porque não havia) eram suficientes como para esperar o
desenlace da impasse sem grandes dramas. Foi lembrado que a ameaça direta à
família era frequente quando a estratégia militar da repressão na ditadura se interessava
em cercar ate capturar os lideres, situação que esta longe de ser a deles, uma
vez que ele “se beneficiam” de ser uma massa-sem-lider, por pura opção. Longe
de ser um ‘defeito político’, não ter líder se torna virtude. Como diz Castells
no jornal de hoje “não há cabeças para cortar”. Alem disso, lembramos que antes
eram as câmeras secretas olhando os jovens. Hoje, alem do olhar midiático –
sempre caolho -- são milhares de câmeras celulares dos jovens olhando e
mostrando instantaneamente o que ocorre na realidade pontual para todo mundo.
Havia ali um poder publico em ato e, mesmo que sua evidencia e eficiência venha
a mostrar-se momentânea ou deturpada, o sentimento era que este poder estava
agindo em muitos outros lugares e que iria sempre ressurgir. Uma vez que este
desconhecido poder é liberado e demonstrado, não da para negar a novidade dos
fatos que cria, assim como não da para devolver o gênio à lâmpada.
A questão do grupo sem líder deu panos para manga, claro, mas
não no sentido que estamos acostumados a ver na clinica dos grupos. Esta
diferença facilitava tudo, porque os jovens entendiam perfeitamente que a
vontade política coesa e renovada dispensava o líder condutor assim como
dispensava o líder representante. Não havia messianismo de nenhuma espécie para
atrapalhar; a autossuficiência do coletivo era altamente convincente.
Outra questão derivada – mais instigante para mim do que para
eles –, que retoma o entendimento desta mobilização como ‘crise de
representação’: não havia ‘discurso critico’ orgânico, nem sequer criticando a
classe política, que é “a mãe” de todas as representações políticas. Ao mesmo
tempo, os mais lúcidos declaram que o movimento é ‘suprapartidário’, e com isto
se atribuíam o direito de excluir do movimento todo e qualquer emblema
partidário. Também faltava discurso fundante ou de projeto, tanto que fiquei
com duvidas se eles eram conscientes que estavam praticando uma forma legitima
de democracia – a democracia direta – ou a ela tendiam.
A conversa na roda reunida no asfalto -- coabitando com barracas
dos ocupantes e viaturas da policia -- corria fluida (às vezes mais do que com
os nossos próprios pares, pensava eu) embora descontinuada por necessidades do
momento. As questões que se colocavam pareciam sempre pertinentes, afastando
meus últimos temores de inadequação. Isto significava que, mesmo na situação
pratica mais ‘quente’, os princípios da clinica política com que trabalhamos na
nossa equipe se mostravam uteis. Alguns temas se transformavam em verdadeiros
seminários a céu aberto. Aquele que poderia se titular “o Perseguidor”, por
exemplo, permitiu distinguir seu efeito fantasmático na medida do necessário
para o momento, isto é, na medida em que ajuda ao perseguido a sair do terror
inoculado pela suspeita sempre presente e ameaçante dos infiltrados, sejam
informantes ou provocadores. O que provoca terror é mais a ameaça do ataque do
que o ataque real.
Algo que transmitia uma força insubstituível para o grupo era a
reação dos passantes: buzinadas e gritos que só se vem nas torcidas se
ofereciam como testemunhos do apoio da população. Nesses momentos, era nítido
que os jovens se sentiam legitimados, mas sem euforias triunfalistas, por serem
conscientes que tudo pode mudar de uma hora para outra. Neste contexto fui
testemunha de um fato altamente significativo: um dos vários carros que paravam
para dar alento ou para deixar uma contribuição; parou somente para deixar sua
doação: cartolina e água!
Falando em líder: te
conto que no meio da muvuca tive uma reminiscência fulminante. Compreendi
claramente o momento em que me iniciava como militante. Foi na minha adolescência,
fazendo ‘trabalho comunitário’ no subúrbio de Buenos Aires (retrato de “o
militante quando jovem”), quando assisti, passo a passo, ao nascimento de uma
líder comunitária. Arrebatado pela força dessa pessoa que parecia brotar de
outra pessoa, me converti. Não seria exagero, querido amigo, se te digo que,
olhando para o agir e o sentimento de certos jovens do acampamento, tive fortes
lampejos daquela companheira. Foi ela que originou meu percurso ate aqui,
pensei, e é aqui, numa esquina de outros países, varias gerações depois, vejo
germes da mesma incomparável potencia que me marcou a vida. Conste que naquela
época tínhamos a paixão revolucionaria para potenciar-nos em tudo, diferente
destes jovens brasileiros que se potenciam no encontro desejante comum. Tal vez
tenha sido a essência deste ‘comum’ que existe entre as pessoas que aquela
companheira argentina me revelou para sempre, e agora o reencontro em um
diminuto ponto luminoso do Brasil.
Bom, meu paciente
amigo, se depois desta sobredose de crônicas você quer mais, me avisa.
Um grande abraço,
Eduardo “Dito”
Losicer
(assino por extenso
para responsabilizar-me)
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Pela não-repetição de violações de direitos humanos!
O Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça
vem a público expressar seu apoio às reivindicações históricas de
movimentos sociais que, hoje, têm levado às ruas centenas de manifestações pelo
país, com a presença massiva da população. Entretanto, expressamos também nosso
repúdio à forma violenta e antidemocrática com a qual o poder público
municipal, estadual e federal tem reagido a estas manifestações.
Estão sendo pautadas questões justas, claras e que refletem a luta dos
movimentos por liberdade e por direitos. Entre elas estão a redução da tarifa e
melhoria do transporte público urbano; a transparência na organização dos
megaeventos esportivos e a abertura para se discutir publicamente suas
intervenções e seus impactos na cidade, com atenção à forma como a população
vem sendo atingida (com remoções e despejos de moradores, privatização de
equipamentos públicos, recolhimentos compulsórios e políticas higienistas,
etc.); bem como a denúncia contra a
violência policial que acompanhamos todos os dias nas periferias e favelas das
grandes cidades.
É fundamental e inegociável a defesa da liberdade política e de
manifestação do povo brasileiro, em um Estado democrático. No entanto, tem-se
instaurado um contexto repressor e autoritário mais próximo ao que se viveu em
tempos de ditadura civil-militar no Brasil.
O Coletivo RJ acompanha os trabalhos das Comissões da Verdade – Nacional
e Estadual do Rio de Janeiro – pautando discussões e reflexões no sentido de
esclarecer episódios de violações cometidas pelo Estado brasileiro contra seus
cidadãos no período ditatorial. Neste sentido, é importante refletirmos também
sobre o legado autoritário e militarizado das forças de segurança pública.
O que temos presenciado nas últimas manifestações, é uma postura
violenta do Estado que, através de suas polícias, tem reprimido duramente
manifestantes, buscando silenciar o debate público, tal como nos tempos de
chumbo. Em todo o Brasil, foram instauradas situações de confronto e violência
policial que, no caso do Rio de Janeiro, não se restringiu ao uso de armas ditas
“não-letais” – como balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito
moral. Tornaram-se públicas imagens de policiais lançando mão de armamento como
fuzil e pistola.
Estes incidentes se agravam em regiões historicamente marcadas pela violência
policial, como é o caso do Complexo da Maré onde se instaurou um cenário de
terror que resultou na morte de 13 pessoas, incluindo 1 policial. O contexto de
uma manifestação popular originou uma operação policial com o efetivo de cerca
de 400 policiais do BOPE, da Tropa de Choque e da Força Nacional. Esta operação
injustificada e desproporcional resultou em execuções sumárias, conforme
apontado por organizações de direitos humanos.
Mais uma vez as forças policiais do estado do Rio de Janeiro, somadas ao
reforço da Força Nacional, operam práticas de criminalização dos movimentos
sociais e da pobreza.
Cumpre destacar o papel da grande mídia que busca legitimar a ação
policial ao reproduzir discursos criminalizadores, taxando de imediato as pessoas
envolvidas como ‘vândalos’, ‘baderneiros’ e, agora, ‘traficantes’ – da mesma
forma como no passado ditatorial muitos foram taxados de ‘terroristas’ e ‘subversivos’.
É importante ressaltar o papel de setores empresariais que muito lucram
com a comercialização dos instrumentos “não-letais” de repressão no Brasil e
que exportam seus ‘produtos’, por exemplo, para a repressão de manifestantes em
outros países, o exemplo da Turquia (como é o caso da empresa ‘Condor’). Este
ramo lucrativo e criminoso conta com apoio de parlamentares cujas campanhas
financiadas devem ser também questionadas.
Nesse sentido, apoiamos amplamente a campanha pela desmilitarização das polícias,
e pelo fim das polícias militares, que representam um resquício ditatorial de
manutenção da postura autoritária do Estado.
Exigimos também a responsabilização dos agentes do Estado envolvidos na
atual repressão à liberdade de manifestação e principalmente dos seus
comandantes. Destacamos a importância de também lançarmos luz sobre os crimes e
a estruturação do Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar, para que
possamos na democracia evitar que as mesmas práticas da ditadura sigam
acontecendo.
Lutamos pela verdade, memória e justiça sobre violações da
ditadura e pela não-repetição destas violações no Brasil democrático.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
DIREITOS HUMANOS SEM PARTICIPAÇÃO?
Durante décadas por sermos opositores do golpe e da ditadura civil-militar (1964-1988) fomos reprimidos, perseguidos, detidos, presos, torturados, exilados, banidos, mortos ou desaparecidos. Interromperam nossas vidas: trabalho, afetos, artes, ciências, prazeres e desejos.
Não tínhamos direito à terra embora nela trabalhássemos, não podíamos fazer greves por salários ou por mais vagas nas universidades. Os transportes públicos foram privatizados e na medida em que ficaram piores tiveram suas tarifas aumentadas. Para construir pontes, viadutos e túneis – privilegiando os caros, poluidores e atravancadores transportes particulares – destruíram as vielas, os becos, as praças, as ruas e até avenidas, com suas casas, igrejas, campinhos de futebol, áreas de lazer e de convivência.
Como as condições de vida e de trabalho no campo eram muito piores do que nas cidades nos amontoamos em favelas horizontais ou verticais, barrancos e precipícios. Fizeram remoções, destruíram nossos barracos, depois de terem invadido as terras onde vivíamos com nossas tribos ou comunidades. Para alguns de nós se estava ruim no campo ficou pior na cidade, então voltamos. Mas as ligas e os sindicatos eram reprimidos, os movimentos marginalizados, até que admitiram os movimentos dos “sem terra” ao perceberem que se acalma um povo que não tem reforma agrária, com acampamentos provisórios, e a espera da sonhada terra para todos que nela trabalham.
A Reforma Agrária não veio ainda, mas os camponeses ainda têm esperança, embora às vezes percamos a paciência.
Um cantor popular cantava “Povo marcado, povo feliz” porque apesar de tocado de um lado para outro como gado estabulado a massa entra e sai das barcas, dos trens, dos ônibus lotados com alegria e disposição. Cinco dias da semana amassados, sofrendo mais nos transportes urbanos do que propriamente nos empregos informais, precários e mal remunerados. Fim de semana: “bicos nas feiras”, nos trens e ônibus, ou nas praias, vendendo balas e outras “distrações para as longas e cansativas viagens”.
Mas no fim de semana tinha futebol, no “Maracanã” ou “Maráca” para os íntimos, onde assistíamos da “Geral” – separados por um fosso – os nossos ídolos, heróis que conseguiram deixar as favelas e conquistar o asfalto. Eventualmente umas cacetadas dos policiais militares, mas nenhuma detenção ou prisão e não tinha bombas de gás ou balas de borracha!
Muitos lutaram contra a ditadura, muitos foram mortos, desaparecidos, presos e exilados. Mas a anistia foi conquistada, ainda que não a “Ampla, Geral e Irrestrita” que defendíamos com o julgamento e a punição dos criminosos que roubaram a nação, a sociedade, o povo, os estudantes, os trabalhadores, as famílias, nossos direitos, desejos e sonhos.
Agora estamos em um Estado de Direito, mas não podemos ir às ruas reclamar dos preços das passagens, dos gastos suntuosos com os estádios de futebol onde as elites irão gastar centenas de reais para sentar em arquibancadas com cadeiras coloridas e comprar lanches com dezenas de reais. Mas não somos todos ricos, pelo contrário, a grande maioria de nós é pobre ou está abaixo da linha de pobreza! Nossas aposentadorias são minguadas, nossos salários mal acompanham a inflação, os preços de tudo aumentam desesperadamente.
Não merecemos gás de pimenta nos olhos, não merecemos balas de borracha, não merecemos gás lacrimogêneo.
Somos a força de trabalho (ou seu exército de reserva) que construiu essa nação. Toda a riqueza apropriada por poucos, toda a renda apoderada por poucos, todos os privilégios usufruídos por poucos se deve ao trabalho de muitos de nós.
Merecemos ser bem tratados. Não queremos nenhum privilégio. Só queremos direitos humanos: trabalho, salário, dignidade, serviços públicos – saúde, educação, cultura, transportes, segurança, água e esgoto, equipamentos públicos – em cidades que sejam para todos.
Não somos exclusivistas, não queremos condomínios fechados, áreas restritas, ruas particulares. Queremos os amplos espaços de liberdade, onde possamos namorar, nos abraçar e beijar, cantar, dançar e eventualmente trabalhar para garantir o que comer, vestir, habitar e gozar.
Liberdade não se ganha, se conquista. Igualdade é mais difícil, mas é preciso vencer a ganância e os preconceitos e conquistá-la também, pois liberdade sem igualdade é uma farsa! Sem a solidariedade não conseguimos direitos iguais para todos, conforme nossas necessidades que são desiguais, ainda mais que nossas possibilidades também são desiguais! Mas como conseguir Liberdade, Igualdade e Solidariedade sem respeito à Diversidade e Participação?
Às ruas: jovens e veteranos cidadãos! Nada tendes a perder a não ser o medo. Não se pode aceitar provocações dos que se colocam a serviço da repressão porque não lhes ensinaram a defender a população contra os criminosos que a exploram e dominam. Com tranquilidade e firmeza hoje somos centenas, mas amanhã seremos milhares a caminhar livremente pelas ruas e praças, e se continuarmos assim ainda cairemos numa DEMOCRACIA!
Paulo Ribeiro
Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça
segunda-feira, 10 de junho de 2013
A Coragem da Verdade : Primeira Audiência Pública da Comissão Estadual da Verdade
No dia 28 de maio de 2013, na primeira reunião pública da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, no plenário lotado da Assembleia Legislativa, o testemunho de duas mulheres militantes comoveu os presentes apontando os horrores da prisão e tortura, o nome dos responsáveis, deixando um legado testemunhal que não será esquecido!
Vale a pena conferir.
Íntegra do depoimento da historiadora Dulce Pandolfi à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro
“Por acreditar que no Brasil de hoje a busca pelo “direito à verdade e à memória” é condição essencial para nos libertarmos de um passado que não podemos esquecer, aceitei o convite da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro para fazer hoje, aqui, esse depoimento.
Mesmo sem nenhum mandato, quero falar em nome dos presos, torturados, assassinados e desaparecidos pela ditadura militar que vigorou no nosso país entre 1964 e 1985.
Mesmo sem nenhum mandato, quero falar em nome dos presos, torturados, assassinados e desaparecidos pela ditadura militar que vigorou no nosso país entre 1964 e 1985.
Como historiadora, sei que a memória não diz respeito apenas ao passado. Ela é presente e é futuro. Os testemunhos que estão sendo dados à Comissão da Verdade, embora sobre o passado, dizem respeito ao presente e apontam para o futuro, por isto mesmo espero que ajudem a construir um Brasil mais justo e solidário. Sei também que da memória – sempre seletiva – , fazem parte o silêncio e o esquecimento. Por isso, nessas minhas fortes lembranças, permeadas por ruídos, odores, cores e dores, estarão presentes ausências e esquecimentos.
Nascida e criada em Recife, fiz parte de uma geração que sonhou e lutou muito. Queríamos romper com as tradições, acabar com miséria e com as injustiças sociais, reformar a universidade, derrubar a ditadura, enfim, queríamos transformar o Brasil e o mundo.
Nascida e criada em Recife, fiz parte de uma geração que sonhou e lutou muito. Queríamos romper com as tradições, acabar com miséria e com as injustiças sociais, reformar a universidade, derrubar a ditadura, enfim, queríamos transformar o Brasil e o mundo.
Em 1968, um ano marcado por muitas paixões e fortes embates políticos e ideológicos, eu, cursando o segundo ano de Ciências Sociais, fui eleita secretária geral do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Pernambuco, DCE, entidade que congregava todos os estudantes daquela universidade. Naquele ano o movimento estudantil explodiu por toda parte. No Brasil, depois da famosa Passeata dos Cem Mil, realizada aqui no Rio de Janeiro e que tentamos replicar nas diversas capitais do país, o ano terminou com a decretação do Ato Institucional n. 5. A partir daí, as prisões, as mortes e as torturas, iniciadas em 1964, aumentaram. A radicalização do regime, para muitos de nós, justificava a continuidade da nossa luta. Foi também em 1968 que ingressei em uma organização de esquerda armada, a Ação Libertadora Nacional, ALN.
No início de 1970, perseguida pelos órgãos da repressão, fugi do Recife e vim para o Rio de Janeiro. Poucos meses depois, fui presa.
Naquela noite do dia 20 de agosto de 1970, no momento em que entrei no quartel da Polícia do Exército situado na Rua Barão de Mesquita número 425, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, ouvi uma frase que até hoje ecoa forte nos meus ouvidos: “Aqui não existe Deus, nem Pátria, nem Família. Só existe nós e você.” Hoje, passados mais de 40 anos, penso no efeito que aquela frase produziu, em mim. Com vinte e um anos de idade, cheia das certezas e transbordando de paixões, eu não queria morrer. Embora totalmente acuada e literalmente apavorada, aquela frase, não deixava a menor dívida para algo que eu já sabia, mas que naquele momento ganhou força e concretude. Não havia comunicação ou negociação possível entre aqueles dois mundos: o meu e o deles.
Era naquele quartel que funcionava o DOI CODI. O prédio tinha dois andares. Diferentemente do que muitos dizem, aquele lugar não era um “porão da ditadura”, um local clandestino. Embora ali não existisse “nem Deus, nem pátria, nem família”, eu estava em numa dependência oficial do Exército brasileiro. Uma instituição que funcionava a todo vapor, com todos os seus rituais, seus símbolos, seus hinos, sua rotina. Ali fiquei mais de três meses.
Na andar térreo, tinha a sala de tortura, com as paredes pintadas de roxo e devidamente equipada, outras salas de interrogatório com material de escritório, essas às vezes usadas, também, para torturar, e algumas celas mínimas, chamadas solitárias, imundas, onde não havia nem colchão. Nos intervalos das sessões de tortura, os presos eram jogavam ali. No segundo andar do prédio havia algumas celas pequenas e duas bem maiores, essas com banheiro e diversas camas beliches. Foi numa dessas celas que passei a maior parte do tempo.
Normalmente os torturadores, embora quase todos militares, andavam à paisana. Os fardados cobriam com um esparadrapo o nome que estava gravado em um dos bolsos do uniforme. Cabia aos cabos e soldados, cuidar da infraestrutura. Eram eles que fechavam e abriam as celas, nos levavam para os interrogatórios, ou melhor, para as sessões de tortura, faziam a ronda noturna, levavam as nossas refeições. Ali não havia banho de sol, visita familiar, conversa com advogado. Nenhum contato com o mundo lá de fora. Naquela fase, éramos presos clandestinos. Só saíamos das celas para os interrogatórios, de olhos vedados, sempre com um capuz preto na cabeça. Quase todos os que faziam o trabalho de infraestrutura, incorporavam o ambiente da tortura. Mas, tinham algumas exceções. Um dos soldados, por exemplo, me deu um pedaço de papel e uma caneta para eu escrever uma carta para meus pais. E, de fato, a carta chegou ao destino.
Durante os mais de três meses que fiquei no DOI CODI, fui submetida, em diversos momentos a diversos tipos de tortura. Umas mais simples, como socos e pontapés. Outras mais grotescas como ter um jacaré, andando sobre o meu corpo nu. Recebi muito choque elétrico e fiquei muito tempo pendurada no chamado “pau de arara”: os pés e os pulsos amarrados em uma barra de ferro e a barra de ferro, colocada no alto, numa espécie de cavalete. Um dos requintes era nos pendurar no pau de arara, jogar água gelada e ficar dando choque elétrico nas diversas partes do corpo molhado. Parecia que o contato da água com o ferro, potencializava a descarga elétrica. Embora, essa tenha sido a tortura mais frequente havia uma alternância de técnicas. Uma delas, por exemplo, era o que eles chamavam de “afogamento”. Amarrada num cadeira, de olhos vedados, tentavam me sufocar, com um pano ou algodão umedecido com algo com um cheiro muito forte, que parecia ser amônia.
De um modo geral, para os presos, a barra mais pesada ocorria nas primeiras 24 horas após a prisão. Era a corrida contra o tempo: para eles e para nós. Durante essas primeiras horas, duas eram as perguntas básicas: ponto e aparelho. Ponto era o local, na rua, onde os militantes se encontravam e aparelho era o local de moradia ou de reunião.
De um modo geral, para os presos, a barra mais pesada ocorria nas primeiras 24 horas após a prisão. Era a corrida contra o tempo: para eles e para nós. Durante essas primeiras horas, duas eram as perguntas básicas: ponto e aparelho. Ponto era o local, na rua, onde os militantes se encontravam e aparelho era o local de moradia ou de reunião.
Não sei quanto tempo durou a minha primeira sessão. Só sei que ela acabou quando eu cheguei no limite. Muito machucada, e sem conseguir me locomover, ouvi, ao longe, um bate boca entre os torturadores se eu deveria ou não ser levada para o Hospital Central do Exército. A minha prisão, consequência de um contato familiar, tinha muita testemunha. Ou seja, muitos familiares, que nada tinham a ver a minha militância foram presos e levados para o DOI CODI. Sobre essas prisões nada ficou documentado.
Quando eu passei a correr risco de vida, montaram uma pequena enfermaria em uma das celas do segundo andar. Ali fui medicada, ali fiquei tomando soro. Meu corpo parecia um hematoma só. Por conta, sobretudo, da grande quantidade de choque elétrico, fiquei com o corpo parcialmente paralisado. Achava que tinha ficado paralítica. Aos poucos fui melhorando. Fiquei um bom tempo sem descer para a sala roxa. Mas, ouvir gritos dos outros companheiros presos e ficar na expectativa de voltar, a qualquer momento para a sala roxa, era enlouquecedor.
Uma noite, que não sei precisar quando, desci para a sala roxa para ser acareada com o militante da ALN, Eduardo Leite, conhecido como Bacuri. Lembro até hoje dos seus olhos, da sua respiração ofegante e do seu caminhar muito lento, quase arrastado, como se tivesse perdido o controle das pernas. Num tom sarcástico, o torturador dizia para nós dois, na presença de outros torturadores: “viram o que fizeram com o rapaz. Essa turma do Cenimar é totalmente incompetente. Deixaram o rapaz nesse estado, não arrancaram nada dele e ainda prejudicaram nosso trabalho”. No dia 8 de dezembro daquele ano, mataram Bacuri.
Durante o tempo que fiquei sozinha na tal cela grande do segundo andar, com muita dor, sem ter absolutamente nada para fazer, achava que ia enlouquecer. Para passar o tempo, inventei duas atividades: contar os ladrilhos do chão e fazer pequenas tranças com palhas retiradas dos colchões.
Foi nessa mesma cela que, naqueles primeiros dias, foi acolhida, durante alguns minutos, por Ana Burzitin, encarregada de dar meu primeiro banho. Depois de algum tempo , chegaram ou passaram por lá Cecília Coimbra, que também me ajudava no banho, Margarida Solero, a canadense Tânia Chao, Maria do Carmo Menezes, Carmela Pezzutti, Vânia, Marcia e Josi. Todas igualmente torturadas. Juntas, totalmente apoiadas umas nas outras, chorávamos, cantávamos e rezávamos muito.
No dia 20 de outubro, dois meses depois da minha prisão e já dividindo a cela com outras presas, servi de cobaia para uma aula de tortura. O professor, diante dos seus alunos fazia demonstrações com o meu corpo. Era uma espécie de aula prática, com algumas dicas teóricas. Enquanto eu levava choques elétricos, pendurada no tal do pau de arara, ouvi o professor dizer: “essa é a técnica mais eficaz”. Acho que o professor tinha razão. Como comecei a passar mal, a aula foi interrompida e fui levada para a cela. Alguns minutos depois, vários oficiais entraram na cela e pediram para o médico medir minha pressão. As meninas gritavam, imploravam, tentando, em vão, impedir que a aula continuasse. A resposta do médico Amilcar Lobo, diante dos torturadores e de todas nós, foi: “ela ainda aguenta”. E, de fato, a aula continuou. A segunda parte da aula foi no pátio. O mesmo onde os soldados diariamente, faziam juramento à bandeira, cantavam o hino nacional. Ali fiquei um bom tempo amarrada num poste, com o tal do capuz preto na cabeça. Fizeram um pouco de tudo. No final, avisaram que, como eu era irrecuperável, eles iriam iam me matar, que eu ia virar “presunto”’, um termo usado pelo Esquadrão da Morte. Ali simularam meu fuzilamento. Levantaram rapidamente o capuz, me mostraram um revolver, apenas com uma bala, e ficaram brincando de roleta russa. Imagino que os alunos se revezavam no manejo do revolver porque a “brincadeira” foi repetida várias vezes.
No final de novembro fui transferida para o DOPS, na rua da Relação, no centro do Rio de Janeiro. Ali, durante um mês, fiquei numa cela com a médica Germana Figueiredo. A ela, também, muito devo. Com o dobro da minha idade, cuidou de mim como uma mãe. Durante a minha estadia no DOPS fui levada para o Instituto Médico Legal, IML, para fazer um exame de corpo de delito. Achavam que eu seria uma das presas políticas trocadas pelo embaixador suíço, sequestrado no dia 8 de dezembro. Uma das exigências da embaixada era que os prisioneiros que fossem trocados pelo embaixador tivessem um laudo médico oficial do Estado brasileiro sobre o seu estado físico. E eu, quase quatro meses depois, ainda estava marcada pelas torturas. Essas marcas constam do laudo oficial do IML, que, o meu advogado Heleno Fragoso, conseguiu anexar ao meu processo. Mas, no final de dezembro, ao invés de sair rumo ao Chile, como os companheiros que foram trocados pelo embaixador suíço, eu fui transferida para o presídio Talavera Bruce, em Bangu, zona norte do Rio de Janeiro. Depois de ter ficado ali quase seis meses, enfrentando uma barra basta nte pesada, fui transferida para o presídio Bom Pastor, em Recife.
Ao todo fiquei presa um ano e quatro meses. Como tinha vários processos, mas nenhum julgamento concluído, saí da prisão no dia 14 de dezembro de 1971, com um recurso jurídico chamado “relaxamento de prisão preventiva”. Era uma espécie de “liberdade condicional”. Tinha várias restrições e não podia me ausentar do país. Anos depois, a Justiça Militar me absolveu. Mas, nenhuma absolvição pode apagar os métodos utilizados durante o tempo que estive presa sob a responsabilidade do Estado brasileiro.
No momento em que estava escrevendo esse depoimento, me veio à cabeça um texto que li, também no famoso ano de 1968, no curso de literatura que fazia na Aliança Francesa de Recife. Esse texto, que muito me mobilizou tem o título de J’Accuse, em português, Eu Acuso. Em carta endereçada ao Presidente da República Francesa, escrita m 1898, o escritor francês Emile Zola fazia uma defesa pública de Alfred Dreyfus, preso e condenado à morte por conta de uma falsidade e de um grave erro judicial. Começando todas as frases da carta com a expressão Eu Acuso, aquele documento produziu um enorme impacto na sociedade francesa. Obviamente sem a pretensão literária de Zola, mas esperando que os trabalhos da Comissão da Verdade produzam também impacto forte na sociedade brasileira, eu finalizo esse meu depoimento, fazendo uma espécie de plágio ao texto do famoso escritor francês.
Eu acuso todos os torturadores, civis e militares, inclusive aqueles que diziam e continuam dizendo que estavam apenas cumprindo ordens dos seus superiores.
Eu acuso os altos oficiais e comandantes do Exército brasileiro que, em visitas oficiais ao DOI CODI, entravam nas nossas celas e faziam gracejos com as nossas torturas. Em uma dessas visitas, um desses oficiais, colocou seu acompanhante, um cão pastor, para lamber minhas feridas.
Eu acuso quem, durante a minha primeira sessão de tortura, me deu uma injeção na veia, dizendo ser o tal “soro da verdade”.
Eu acuso o major da Polícia Militar Riscala Corbaje, conhecido como doutor Nagib, que ao perceber que o tal soro da verdade não havia produzido o efeito esperado, me levou para uma pequena sala, me deitou no chão, subiu nas minhas costas, começou a pisotear e me bater com um cassetete, dizendo, aos gritos, que ia me socar até a morte. O seu descontrole foi tamanho e seus gritos tão estridentes que os outros torturadores entraram na sala e arrancaram ele de cima de mim.
Eu acuso o major do Exército João Câmara Gomes Carneiro, conhecido como Magafa, que em uma daquelas noites, dias depois que eu havia saído do soro, me deixou durante algumas horas, em pé, com um capuz na cabeça e os fios amarrados nos meus dedos. De tempos em tempos ele cochichava nos meus ouvidos que eu tivesse “um pouco de paciência” porque ele estava muito ocupado, mas que “a sessão dos choques elétricos iria começar a qualquer momento”. Para mim aquele foi um tempo quase infinito. A despeito de ser aquela uma noite muito fria, quando voltei para a cela, minha roupa estava totalmente molhada, colada no corpo, de tanto que eu havia transpirado de medo.
Eu acuso o major do Exército João Câmara Gomes Carneiro, conhecido como Magafa, que em uma daquelas noites, dias depois que eu havia saído do soro, me deixou durante algumas horas, em pé, com um capuz na cabeça e os fios amarrados nos meus dedos. De tempos em tempos ele cochichava nos meus ouvidos que eu tivesse “um pouco de paciência” porque ele estava muito ocupado, mas que “a sessão dos choques elétricos iria começar a qualquer momento”. Para mim aquele foi um tempo quase infinito. A despeito de ser aquela uma noite muito fria, quando voltei para a cela, minha roupa estava totalmente molhada, colada no corpo, de tanto que eu havia transpirado de medo.
Eu acuso o médico Amilcar Lobo que fez uso dos seus conhecimentos médicos para auxiliar no esquema da tortura. Um dia, diante do nosso clamor para que ele tentasse impedir que Maria do Carmo Menezes, grávida de cinco meses, continuasse sendo torturada, ele nos respondeu: “comunista não pode engravidar”.
Eu acuso o cabo Gil, um dos responsáveis pela infraestrutura do quartel da PE. O seu sadismo era sem fim. Lembro até hoje do barulho forte das chaves quando ele abria a porta da nossa cela com o capuz na mão. Propositalmente, ele demorava um tempo e, como se tivesse fazendo um sorteio, dizia: “acho que agora é sua vez”. Descer as escadas de olhos vedados, guiadas por ele, era um horror. Sempre inventava mais um degrau ou colocava o pé para nós tropeçarmos.
Eu acuso o cabo Gil, um dos responsáveis pela infraestrutura do quartel da PE. O seu sadismo era sem fim. Lembro até hoje do barulho forte das chaves quando ele abria a porta da nossa cela com o capuz na mão. Propositalmente, ele demorava um tempo e, como se tivesse fazendo um sorteio, dizia: “acho que agora é sua vez”. Descer as escadas de olhos vedados, guiadas por ele, era um horror. Sempre inventava mais um degrau ou colocava o pé para nós tropeçarmos.
Eu acuso o agente da Polícia Federal Luiz Timóteo de Lima, conhecido como Padre, que me deu muito choque elétrico.
Eu acuso o coronel da reserva Paulo Malhães que em recente entrevista ao jornal O GLOBO, no dia 26 de junho de 2012, afirmou que em 1970, trouxe do rio Araguaia cinco jacarés e levou para quartel da PE na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, para atemorizar os presos políticos.
Eu acuso todos os que assistiram e os que ministram aulas de torturas comigo e com outros presos.
Eu acuso todos os que assistiram e os que ministram aulas de torturas comigo e com outros presos.
Eu acuso a diretora do Presídio Talavera Bruce em Bangu, no Rio de Janeiro, que me deixou durante seis meses, sozinha, isolada, numa cela mínima, insalubre, chamada solitária. Em solitárias semelhantes estavam, naquele mesmo período, as presas políticas Estrela e Jessie Jane.
Eu acuso os ex presidentes da República Humberto Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo. A despeito das divergências entre eles e das diferentes conjunturas em que chefiaram o país, todos, sem exceção, foram responsáveis e coniventes com a tortura.
Finalmente, eu acuso o regime ditatorial implantado no Brasil em 1964, que fez da tortura, uma política de Estado.”
Ver também http://www.canalibase.org.br/ainda-existem-outras-torturas-no-brasil/
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